quarta-feira, 12 de março de 2014

CARTA AOS PEDETISTAS DO RIO


Em 13 de março de 2014 - 
A propósito das eleições para Governador do Rio de Janeiro.
Comício da Central do Brasil de 13 de março de 1964
Há 50 anos o Rio de Janeiro assistiu um dos mais memoráveis comícios de sua história política. Na Central do Brasil, em evento protegido pelo Exército Brasileiro, pelo menos 150 mil pessoas ouviram do Presidente João Goulart as iniciativas que tomava no caminho das Reformas de Base, inclusive a reforma agrária e a reforma urbana, que preparariam o país para o crescimento harmônico e sustentado.
Brizola acena ao ser ovacionado no Comício da Central
O comício foi usado pela direita brasileira, com o apoio dos Estados Unidos da América, para efetivar o golpe militar alguns dias depois. Leonel Brizola, que sobreviveu ao mais longo exílio da história política brasileira, estava presente, armado, por saber que era alvo dos fascistas do país.
Na re-democratização consentida, com salvaguardas aos golpistas, torturadores e instituições que os apoiaram, a manipulação, o medo e a cumplicidade de oportunistas não permitiriam que houvesse outro presidente trabalhista no Brasil.
Os presidentes trabalhistas, Vargas e Jango, falavam para o povo fora do período eleitoral. Os presidentes atuais falam para os investidores estrangeiros ou para o "mercado".
Click aqui para ouvir dois minutos do discurso de Jango na Central
Mas, Brizola volta com o trabalhismo entendido por ele, em Lisboa, como o caminho brasileiro para a construção do socialismo em liberdade. E, apesar da fragmentação do trabalhismo imposto na transição, se torna a razão histórica que deu vida ao Partido Democrático Trabalhista e o líder que nos conduziu, com coerência e coragem, sempre ao lado dos anseios do povo brasileiro e na vanguarda política do país.  A sua ausência foi sentida por nós pedetistas como a mais intensa e indestrutível das presenças!
É lamentável a crise no PDT: passados quase dez anos da morte de Brizola - a falta da referência daquele norte que ele simbolizava - tornaram mais difíceis nossas decisões e ainda mais difíceis os nossos consensos. Recentemente perdemos 1/3 de nossa bancada federal, agora reduzida para 18 deputados.

É absolutamente natural e comum que existam tendências e grupos que pensem estratégias políticas diferentes e que, portanto, disputem a maneira de conduzir um partido e a realização de seu programa. Respeitar as divergências é a chave para o convívio democrático, é a chave para o crescimento de um partido. Mas, o respeito a regras democráticas consensuadas é imprescindível para a união na diversidade. Assim sendo, o horizonte do debate, bem como os seus limites, são a democracia interna e o programa do partido. 
No nosso caso, a situação é complicada do ponto de vista do processo democrático. Mas, ao programa ao qual aderem todos, se soma um patrimônio trabalhista inestimável, que podemos chamar de “legado brizolista”. Trata-se da memória viva, das corajosas posições que Leonel Brizola assumiu em favor do povo brasileiro em tantos momentos cruciais da história do Brasil, oferecendo inclusive a própria vida. Brizola retomou após o Golpe de 64 o ideário de Getúlio e Jango. 
É com esse programa e esse legado que contamos neste momento em que enfrentamos um quadro preocupante no estado do Rio de Janeiro. O apoio incondicional e a aliança política que a direção do PDT estabeleceu com o Governador Sérgio Cabral podiam ser entendidos há alguns anos; hoje queremos compreendê-los, pois temos clareza que não há nada mais antagônico ao programa do PDT do que a prática do Governo Cabral. Na antevéspera de um processo eleitoral, parece inoportuno manter o partido atrelado a um projeto político elitista e sanguinário, que implementa uma política de segurança violadora dos direitos humanos, que inverte prioridades agravando o problema da mobilidade urbana e abandona a inegável contribuição brizolista para o desenvolvimento e universalização da educação e da saúde pública.
Nós queremos dizer que respeitamos os quadros partidários que prestam seus serviços no Governo Estadual, e tendem a apoiar o candidato do PMDB ao governo, mas queremos convocar todos os bravos brizolistas que ainda compõem o PDT do Rio para cedo despertar, como nas madrugadas trabalhistas a que nos levava Brizola ante o busto de Vargas, onde líamos a carta-testamento.

Fazemos um apelo aos companheiros num clima elevado para que revejam, pois, essa posição. Por fragilidade eleitoral, está também descartada uma candidatura própria. Por essa razão, mais do que nunca, devemos procurar, no grave momento pelo qual passamos, com milhões de pessoas insatisfeitas, que se manifestaram nas ruas em uníssono contra esse governo estadual, uma candidatura de esquerda que se comprometa publicamente com um programa mínimo na educação, na saúde e na segurança pública, que Vargas, Jango e Brizola subscreveriam.

Essa posição será bem entendida pelos trabalhistas e brizolistas dispersos, pelos simpatizantes e eleitores do velho PDT de Brizola, que tantas vitórias nos deram. Sobre ela reconstruiremos um partido capaz de viabilizar candidatos majoritários para oferecer ao eleitorado do Rio num futuro próximo.

Assinam: ex-Ministro Brizola Neto e ex-Secretário Eduardo Costa.

terça-feira, 4 de março de 2014

WELLS E WELLES

Uma dupla do barulho.

Com esse título, Franklin Cunha, médico e escritor gaúcho, discute a política brasileira, face aos profetas da catástrofe econômica que se avizinharia. Achei muito interessante, porque nada mais ridículo hoje do que os comentários econômicos publicados nos jornalões, mas sugiro que a leitura seja acompanhada de outra, de João Sicsú, publicada na Carta Capital online, veja aqui.

Eis o artigo do Franklin:

Para formar  e formatar a opinião da coletividade em que atua, os meios de comunicação sempre contam com a ausência de conhecimentos históricos, políticos e econômicos de quem os lê, vê e ouve. Uma vez que torna  tão desvalida e inerme sua pretensa  massa crítica, aprofunda sua situação acrítica e não tem nenhum interesse em retirá-la do limbo dos desconhecimentos e das desinformações.

Orson Welles ao tempo de radialista.
Era com esta situação do povo americano que contava Orson Welles quando dramatizou pelo rádio a novela de Herbert George Wells  “A guerra dos Mundos".  Corria o ano de 1938, os EEUU ainda não tinha se recuperado da grave crise econômica da década, estava às vésperas da segunda guerra do século, desencadeada pelas potências imperialistas de turno, os americanos se encontravam muito nervosos, inseguros e num absoluto estado de graça do que verdadeiramente se passava em seu país e no mundo.

Welles então, elaborou um programa de rádio que criou o pânico em milhões de americanos de costa a costa. O rádio à época era ouvido em todas as famílias do país que se juntavam em torno dele depois da janta para se entreter, que ninguém se dispunha ouvir notícias desagradáveis depois de um dia estafante de trabalho. De repente, desse eletrodoméstico amigo, aconchegante como o gato ou o cão da casa, surgiram notícias de avassaladora destruição apocalíptica. Hordas de marcianos estavam invadindo a terra. O gênio histriônico de Welles a relatava com grande convicção e assim despertou sentimentos que certamente estavam em algum lugar secreto da consciência da população.E estes eram, certamente temores, terrores e incertezas quanto ao futuro da sociedade americana.

O momento histórico que estamos vivendo em nosso país, está sendo midiaticamente profetizado por incertezas, dúvidas, pessimismo e mesmo por previsões da invasão de uma horda de leis restritivas às conquistas populares criadas pelos últimos governos e originadas, tais leis,  no espaço  sideral do governo planaltino para depois das eleições. As más previsões, até já usufruem do gozo de sermos derrotados fragorosamente na esperada disputa esportiva do próximo mês de junho.  


Mas, sendo evidentes e incontestáveis os progressos sociais como o pleno emprego, o aumento do consumo de bens e serviços devidos à entrada no mercado de 40 milhões de brasileiros, a inflação controlada, as excelentes safras, a extensão de cuidados médicos todos os rincões do país, fica difícil, portanto, diante de todos esses fatores positivos, insuflar nas diversas camadas populares, o pessimismo, a desesperança e o pânico desejados por alguns setores políticos. Nem mesmo conseguem modificar as preferências eleitorais comprovadas nas muitas pesquisas já realizadas.


E depois, cá para nós, os arautos do catastrofismo que excretam diariamente previsões de desgraças e desalentos por certos meios de comunicação, não têm, nem de longe, a genialidade da dupla Wells e Welles, realmente uma dupla do barulho.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

POR UM GOVERNO POPULAR E DEMOCRÁTICO PARA O RIO!

Com Direito a passar o Carnaval no Rio!

Férias, verão de rachar, caos urbano no Rio, onde prefeito sugere que quem tiver sítio ou casa fora da cidade, vá para lá, inclusive durante a Copa. Pede também que não se critique o Rio na internet para que se possa viver mais feliz!

Isso atesta alguma coisa? Mais que uma, é claro. O que esses dois governos (estadual e municipal) do PMDB et caterva fizeram com o Rio?

Ora, a Copa virou a desculpa oficial para a maior ofensiva anti-popular das últimas décadas no Rio. E vai ter mais, depois da dita, virá a justificativa das Olimpíadas.

Os governos do Rio, do qual participa até o meu finado partido, contra a nossa vontade, se entregaram de corpo e alma aos negócios em torno da especulação imobiliária, das obras sem finalidade, para agradar empreiteiras. Jamais vi governos que estivessem tão desinteressados com o que se passa com a vida das pessoas da cidade.

Em nome da Copa, desalojaram milhares de pessoas à força – legalizada, às vezes, pela barbárie jurídica. E sempre pela falta de possibilidades dos pobres de contestação.

As manifestações que explodiram nas ruas foram acuadas por cassetetes, gás e spray, além de balas de borracha. Policiais se disfarçam de meliantes para meliar e acusar black blocs de tudo. Inocentes úteis são pagos, não se sabe por quem, para tirar o povo da rua, agindo irresponsavelmente.

Preparam uma legislação anti-terrorismo – é de gargalhar - para acabar com a democracia com participação popular.

O que acontece nos transportes é proibido de filmar nos horários de pique, e a Globo censura seus repórteres por terem tentado, o que prejudicaria a fluidez e a segurança dos passageiros!!! Os trabalhadores que gastavam 1 a 2 horas para chegar ao trabalho agora levam de 2:30 a 3:30 horas.

Ir ao futebol? Como? O ingresso de um jogo desimportante do Flamengo no Maraca, mais barato, foi de 100 reais. Cada time joga seis a oito vezes por mês. Quer dizer, o salário iria acabar só com o ingresso.

As UPPs (as agora famigeradas Unidades de Pacificação policial) matam e desaparecem com os corpos dos desafetos. E a classe média clama por mais polícia.

Mas o Rio continua lindo, e claro que queremos que os turistas gostem do que é feito em nome deles. Para os generosos cariocas poderem viver bem também é preciso outra coisa: Uma coalizão de forças de esquerda para acabar com o estado sub-facista do Rio. Sou, como, tantos outros, por uma coalizão popular e democrática contra o regime das elites: tecnocrático e  autoritário.

Precisamos somar forças e não nos deixar enganar por uma mídia que tem parte nisso tudo que aí está.

Enquanto isso, na serra ou na praia, nas ruas ou em casa: 

Suvaco do Cristo no Jardim Botânico:
Homenagem ao Bagulho legalizado no Uruguai.

Bom Carnaval!
- com a irreverência do Rio.

- Daqui não saio daqui ninguém me tira!


Eduardo de A. Costa

(Rio, 25 de fevereiro de 2014.)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CRÔNICA DE DOMINGO DE IEMANJÁ

Águas Passadas.*

Em 1985, o Governo Leonel Brizola entregaria à população
 do Rio as 19 primeiras ambulâncias da Defesa Civil em
plena operação. Para isso, a Secretaria de Saúde e o
Corpo de Bombeiros trabalharam no projeto desde 1983.

Ouvi uma sirene do tipo de bombeiros, entre 11:00 e 12:00 horas de hoje. Fui à janela e vi que eram duas ambulâncias, daquelas vermelhas que criamos no Governo Brizola no Rio, em 1985, para emergências de rua; não era do SAMU.  Vieram na contramão, era dia de feira. Uma delas saiu, e antes da segunda partir, chegou uma patrulhinha. Estava tudo calmo na feira, visto de cima. Não ouvi tiros – seria uma queda de prédio ? – em geral dá alvoroço.

Minhas memórias são vívidas do início da operação dessas ambulâncias, da decisão de formar tenentes-médicos, da seleção de equipamentos, da central de informação, comunicação e controle, da decisão de montar oficina, e das críticas de nossos sempre contras. Em 1986, não tinha candidato no Brasil que não prometesse ambulâncias como aquelas. Pensei em fotografá-la, tantos anos passados. Mas demorei a descer para fazer a minha feira.

Interior de uma ambulância da defesa civil.
Condições de cirurgias e manobras de ressuscitação.

Depois do pastel, perguntei ao feirante o que houvera. “Um velho senhor foi morto a facadas pelo filho”, me disse, comentando que isso era um absurdo: - um filho não pode atacar um pai. Tentei dizer que…, mas ele de pronto disse que nada justificava. Não cheguei a falar em doentes mentais e drogados. Pensei: - já vi famílias destroçadas sem saber como se conduzir com filhos doentes ou viciados. Lembrei do suicídio de uma querida amiga e da peripécia para internar o seu filho, que claro não aceitava. Disse: - Bom..., é… E terminei minhas compras no ritmo calmo da feira de hoje. 

Lancho em casa e ouço no rádio: Eduardo Coutinho foi assassinado a facadas na Lagoa. Putz, não sabia que ele morava ali. Sua mulher também foi ferida e levada para o Miguel Couto. O filho ferido mais levemente é suspeito. Tinha problemas mentais. Que coisa trágica! 

Eduardo Coutinho (eduardocoutinho.blogspot.com.br)
Foto de Aspásia Camargo. 
Importamos um grande avanço: a desospitalização à italiana na doença mental, mas tudo que vira religião cria dissidências. Muita gente resistiu, mas claro sempre a resposta foi que defendiam interesses do setor privado hospitalar. Mas e o concreto das pessoas? Ninguém se propõe simplesmente a abolir - proibir – o fumo, “mudanças de comportamento são lentas”, mas apoiamos empurrar uma mudança completa no seio de famílias – claramente desejável – praticamente abolindo a internação psiquiátrica sem o consentimento do paciente - fiquei a ruminar. E os manicômios judiciários, como estarão? Bem, tudo melhorou no Brasil, ou não?

Ao escrever, vejo que devo esclarecer. Desde logo, aviso: antes da nova constituição, tivemos de lidar no Rio com a barbárie legada do tratamento asilar de doentes mentais. 

Três eram os hospitais psiquiátricos do estado (RJ): o de Jurujuba em Niterói, o de Vargem Alegre em Barra do Pirai e o de Carmo. Os dois primeiros eram os de filmes de horror, iniciamos a desativação. Este último era diferente, prestou modestos/bons serviços até 2002, sendo desativado em 2005. O resumo da situação era o abandono de e por todos. Mendigos e alcoólatras largados pela polícia à porta, sem identificação, passariam a viver naquele inferno. Ninguém reclamava o parente desaparecido, não havia para onde mandar de volta à família. Simples assim.

Como Secretário de Saúde fui convidado para a mesa inaugural de um primeiro Congresso Nacional de Psicanálise. A esses médicos e psicólogos disse que nada simbolizava mais o avanço na saúde mental do estado na nossa gestão do que a comemoração que fizéramos do primeiro mês em que em Vargem Alegre não tinha havido nenhum óbito por fome ou tuberculose – a média no passado era um óbito por dia. O ex-diretor era um PM! Colocamos um jovem pneumologista - Hélio Camerano!
(Registro que tínhamos um programa de saúde mental, bem dirigido pelo Maxim Sauma e depois pela Marisa Conde, mas não cabe falar disso.)

Agora, deixar as famílias sem alternativa para proteger-se e aos próprios pacientes, é outra coisa. Tudo depender de mandados judiciais e criar o sentimento de maus pais por quererem internar filhos em episódios graves é outra. É uma espécie especial de liberalismo à força.

No meio disso lembro de meu tempo de Inglaterra. Sem o alarde próprio dos latinos, reservaram leitos hospitalares em hospitais gerais e alternativas comunitárias. Mas sem a chave não adianta copiar: não funciona. Sem o médico GP – aqui médico de família, que acompanhando o paciente e a família ao longo do tempo, sabe quando tomar a decisão de internar imediatamente e como continuar o tratamento na volta, constrangemos as famílias as deixando, já fragilizadas emocionalmente, sem saber o que fazer.

Por isso, e muito mais, continuo a apoiar o mais médicos, mas não é só para as populações desatendidas: é para todos, principalmente para os milhões mal atendidos nos grandes centros urbanos: a saúde pública precisa dar atenção individualmente dedicada a TODOS. Para isso um serviço nacional ou único de saúde pública, com carreira para os profissionais da saúde. Quem sabe devessem todos conhecer nosso projeto experimental à época de “sistema de saúde em sua estrutura-tipo" para uma micro-região ou distrito: um hospital geral, policlínicas e unidades de atenção primária com o médico de família.

Vale a pena escrever sobre isso? Logo hoje, domingo 2 de fevereiro, dia de Iemanjá e Oxumaré - N. Sra. dos Navegantes – procissão de barcos no Guaíba?! Festa da melancia na meninice. Rajadas, doces, saborosas. As da feira não são como aquelas espalhadas no chão!

Eduardo A Costa – 02/02/2014.
*(editado retirando outro assunto da feira de domingo - será retomado noutra nota ou artigo)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

SAÚDE NÃO TEM PREÇO

Programa da Farmácia Popular do Brasil.

Há poucos dias o Governo Federal comemorou a continuidade da distribuicão gratuita de uma lista de medicamentos de uso contínuo para hipertensão arterial, diabete e asma brônquica. Tais medicamentos são distibuídos por farmácias comerciais, alem daquelas cerca de 200, creio, criadas com a montagem pelo Governo de farmácias exclusivamente para vender certos medicamentos ditos essenciais de modo subsidiado, que integram a Farmácia Popular I, conveniadas com municípios. Ambos sistemas de assistência farmacêutica estão dentro de um programa chamado de “Saúde Não Tem Preço”, mas pagamos todos nós, por impostos, e quem recebe em última instância são os fabricantes de medicamentos!

No portal do Ministério da Saúde é possível ter acesso aos dados do programa que depois de custar 1,3 bilhões no ano de 2013, terá um orçamento para 2014 de 2,6 bilhões. É claro que não estão incluídos os gastos de fornecimento de medicamentos de alto custo pelo MS, nem os recursos repassados a municípios para assistência farmacêutica nos postos de saúde e hospitais, nem aqueles que se incluem nas contas apresentadas pelos hospitais conveniados, privados ou filantrópicos.

Essa medida, iniciada no governo Lula, de criar farmácias populares e, depois, de usar a rede privada já existente e negociar a distribuição, o que foi feito integralmente na Inglaterra na época da criação do Serviço Nacional de Saúde, facilitou em muito o acesso a medicamentos e ajuda também os planos de saúde privados.

O programa tem, no entanto, no que melhorar e, sem esgotar o assunto, temos de lembrar que a distribuição de farmácias, como de médicos, seguem as lógicas do mercado. No entanto, aquelas farmácias públicas iniciais deveriam se localizar preferentemente nessas áreas carentes, pois lá os medicamentos circulam sem a correta orientação médica e farmacêutica, inclusive relacionada à conservação de medicamentos. Como conheço bem essa realidade, tenho sempre proposto que o planejamento central do MS seja direcionado à equidade, corrigindo as distorções próprias do mercado. Mas, a lógica da demanda – mercado – é mais forte.

Nas minhas andanças, no ano de 2012, detectei uma situação esdrúxula. Ao visitar as obras de usinas elétricas em Rondônia, pedi para ver os serviços médicos, odontológicos e farmacêuticos. Muito bem, a farmácia terceirizada pela empresa construtora não estava dentro da abrangência das farmácias populares. Medicamentos para diabete, por exemplo, custavam mais do que em farmácias privadas de Ipanema, pagos diretamente pelos trabalhadores.

O que nos diz isso? Entre muitos outros, vivemos um verdadeiro apartheid na área da medicina do trabalho. As diretivas de saúde negociadas entre patrões e empregados sob  égide do MTE, não são as mesmas do MS. Mas isso é assunto para outro artigo.

Como essas notas são sobre a farmácia popular, não posso deixar de comentar também os percalços para tratar minha hipertensão e diabete com medicamentos do programa. Primeiro, muitas farmácias gostam de ter o Banner do programa, pois atraem clientes para seus cosméticos e produtos de higiene pessoal, mas não gostam tanto de dispensar os medicamentos. A alegação de “queda no sistema” é a mais comum. A empurroterapia também funciona. Entregam genéricos sistematicamente do mesmo fabricante. Creio que a Medley é a que mais investe nesse “marketing”.

Mas há outros problemas típicos da burocracia “controlista brasileira”: se o mês tem 31 dias, você tem de passar um dia sem medicamento, o que se agrava se por qualquer razão o paciente perder, deixar rolar, ou emprestar para alguem que na hora do almoço esqueceu o comprimido. Mas se você tentar comprar com uns dias antes da data de encerrar (para não esquecer ou porque vai viajar) não poderá adquirir. Mas o mais ridículo mesmo é que se estiver acamado, ou por qualquer razão quiser que alguém adquira por você, terá de antes passar no cartório e dar uma procuração autenticada!

Como alguns que têm mais conhecimentos – a classe B, em geral - resolve isso? Pedindo receitas em vários nomes para médicos amigos!  Quase tudo no Brasil dos CGUs, TCUs, MPs e prende, arrebenta e pune é assim.

Para corrigir isso investirão milhões em informática de última geração. Enquanto isso, um serviço público de saúde onde tudo seria absolutamente, naturalmente e simplesmente resolvido, não é sequer discutido. Acham que é romântico ou dinossáurico. Sei lá!

Eduardo de Azeredo Costa

Em 21/01/2014.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O ROLEZINHO É A EXPRESSÃO POPULAR DAS JUVENTUDES

Jefferson Lima*

Começa o ano de 2014 e com ele algumas questões com a periferia brasileira, com a juventude negra e a sua expressão popular, dentro de um novo contexto. Os rolezinhos organizado pelos jovens da periferia estão adentrando as zonas de conforto, e os espaços de “exclusividade” de uma elite brasileira que não assimilou e não aceita as transformações que vem ocorrendo no nosso país.


O agora “famoso” rolezinho, fortemente convocado no final de 2013 e agora no início de 2014, são vistos com muita desconfiança e preconceito pelas famílias de classe média-alta que frequentam espaços como os shoppings centers. O rolezinho de 15 de dezembro no shopping de Guarulhos acabou com 23 presos, que foram liberados pouco depois. Contra eles nenhum tipo de acusação. Houve várias outras convocatórias como a do Shopping Metrô Tucuruvi, na zona norte, onde a participação de cerca de 500 jovens foi recriminada fortemente pela PM de São Paulo.


O fenômeno dos rolezinhos (centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras”, pegar geral, se divertir, sem agressão, sem roubos, sem violência.) são concentrações espontâneas de pessoas convocadas pelas redes sociais para ações em um mesmo espaço. Apenas a ocupação de um espaço até pouco tempo bem distante da realidade desses jovens, como por exemplo os shoppings nas grandes cidades.


A maioria desses jovens são influenciados pelo funk da ostentação, surgido na Baixada Santista e agora bem forte em todo o estado de São Paulo e também no Rio de Janeiro. Esse perfil musical evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso dá: correntes e anéis de ouro, vestidos com roupas de grife, carros caros e utilização de espaços há pouco tempo longe da realidade.


Neste final de semana seis shoppings do Estado de São Paulo conseguiram o apoio da Justiça para bloquear a entrada dos jovens e acabar com o direito de ir e vim de qualquer cidadão. E ainda pior, autorizando policiais e seguranças privados para fazer abordagem aos jovens com perfil bem definido: menores desacompanhados, de baixa renda, negros(as), roupas largadas. Qual foi a solução para acabar com os rolezinhos? Cassetetes, a proibição de entrar no shopping e uma liminar onde o garoto ou garota indiciado terá que pagar multa de 10 mil reais.


Qual o crime essa juventude está cometendo? A saída será mesmo as bombas de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, balas de borracha e a mesma truculência e violação dos direitos civis usadas durante as manifestações do ano passado? Ou o mesmo apartheid social e irracional que ainda impera em vários países e que ainda existe no Brasil?


O verdadeiro crime é a ausência de políticas sociais que incluam essa geração de jovens, que gere um leque de oportunidades, emancipação e autonomia e que são diariamente excluídas do convívio social.
De fato o que está em jogo são os direitos civis de uma parcela significativa da juventude brasileira, que através dos rolezinhos, acabam denunciando de uma forma criativa, o estado de exceção, a atitude vergonhosa de um estado e a expressão racista e violenta do conjunto de autoridades policiais, a ausência de políticas públicas, de espaços de lazer (pistas/quadras/ anfiteatro), de expressão cultural e a privatização das cidades e da mobilidade urbana no Brasil. Esses jovens negros da periferia, até então invisíveis, para a parcela da Casa Grande que ainda existe no Brasil, tem o desejo de construir novos horizontes, ter opções de fomentar novas narrativas de qual país eles querem viver.


O direito a livre manifestação está previsto na Constituição Federal. O que vemos hoje é a usurpação dos direitos civis e das expressões populares no nosso país.


Os rolezinhos de hoje, já aconteceram em vários outros momentos da história e vai continuar acontecendo no futuro breve em contexto social diferente. Entender e valorizar as mudanças sociais no nosso país e fortalecer a diversidade da organização e das expressão das juventudes é de fundamental importância para construir um país cada vez mais justo, igualitário, livre do racismo e do preconceito e com respeito a pluralidade do nosso povo.


Que aconteçam vários rolezinhos por mais Juventude Viva, por mais espaços públicos e área de lazer, os rolezinhos contra o racismo, rolezinhos pela desmilitarização da PM, rolezinhos por um Plebiscito Popular pela Reforma Política.

É povo! É Rolê! É Juventude Viva!

*Secretário Nacional de Juventude do PT

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

BRASIL RASGADO


(Homenagem a João Goulart e Wilson Fadul)

Nesses dias a mídia relançou a participação de Kennedy na decisão de invadir o Brasil, caso os golpistas brasileiros não conseguissem derrubar o governo sem a presença direta dos marines americanos no solo brasileiro. Tudo ouvido diretamente da boca de Kennedy e, como ouvimos antes, diretamente e cruamente também da de Lindon Johnson.

Jango é recepcionado em NY, 1962.
Não há novidade, a novidade é o relançamento do série de livros do Elio Gaspari, em particular do primeiro e segundo volumes (A DITADURA ENVERGONHADA e A DITADURA ESCANCARADA) atualizados também com revelações à Comissão da Verdade. Excelente obra, o que redime o jornalista de algumas más páginas nos tempos atuais.

O que dá engulhos, no entanto, é a sempre participação do agente falcão americano, designado na época de “embaixador” Lincoln Gordon – sempre ele - tramando sem parar para derrubar o governo João Goulart.  Sobre ele, quando em entrevista recente disse que o golpe de 1964 foi um êxito completo, proclamando-o como a maior vitória do “ocidente” na Guerra Fria, maior até que a queda do muro de Berlim, escrevi: o Embaixador do Vietnã do Sul, em Saigon, nunca pode dizer o mesmo: teve de fugir quando os Estados Unidos foram derrotados militarmente por Ho Chi Ming, o General Giap e  povo vietnamita, em 1975.

Na Casa Branca, de pé: L.Gordon, R. Campos, S.T.Dantas e R. Goodwin.
Tive oportunidade no meu livro “50 anos desta noite” de relatar o que colhi pessoalmente do Wilson Fadul e de várias outras fontes escritas, inclusive os livros do Gaspari, e de material americano gravado e que está disponível no You Tube, sobre os episódios de 1964.

Revelar essa intenção de invasão do Brasil hoje é pouco.  É preciso dizer com todas as letras, que até mapa existia da divisão do Brasil se houvesse resistência militar. O mapa considerava que a resistência seria no sul, com Brizola liderando, o que seria o Brasil do Sul. O Brasil do Norte iria até Pernambuco. O mapa que vi recentemente, separava a Amazônia e parte do Nordeste, que seriam anexados aos Estados Unidos – ocupados e governados por eles.

Naqueles dias de março, Santiago Dantas, que estava afastado do Governo, muito amigo do Fadul, contou a ele o que sabia, e Fadul disse que falasse direto com o Presidente sobre o assunto e marcou a audiência.  No dia 1o. de abril, na reunião com o General Âncora, interino no 1o. Exército, Jango viu o mapa, segundo Fadul. E desfez qualquer ordem de dissolver o levante de umas poucas unidades facilmente sufocáveis. Não autorizou também que a FAB bombardeasse as tropas do General Mourão. Só deram um rasante que foi um espalha baratas.

Voltou a Brasília, naquele dia. E de lá mais tarde rumou para Porto Alegre, onde chegou de madrugada do dia 2. Enquanto viajava, o Congresso dava o golpe, declarando vago o cargo. Na posse, na madrugada, de Rainieri Mazzili, o secretário da embaixada americana era um solitário representante, que a todo instante falava com Gordon, que transmitia a Johnson. De manhã Johnson já havia reconhecido oficialmente o novo governo brasileiro. Em Porto Alegre, Jango avaliou o quadro e resolveu não resistir, não queria derramamento de sangue, o Brasil fraturado. Saiu do Brasil no dia 4 de abril. Evitou, segundo muitos, termos um Brasil do Sul e um do Norte. Manteve a Amazônia brasileira. Mas o preço pago foi muito alto. Não se esperava a barbárie que viria à frente. A concertação com golpes em outros países latino-americanos.


Fadul na sua posse como
Ministro da Saúde em 1963.
Na raiz do ódio contra Jango estavam os interesses da Bond&Share e da ITT, nacionalizadas por Brizola, o 13o. salário e a memória de sua disposição de melhorar salários, além é claro das reformas de base propostas. A campanha em 1963, liderada por Fadul contra as multinacionais dos medicamentos, foi um duro golpe nas fraudes contábeis que permitiam a exploração do país.

Por estranho, também, o movimento sanitário brasileiro homenageou Fadul em vida pela 3a. Conferência Nacional de Saúde, onde a municipalização da atenção básica foi proposta, mas silenciou sobre a maior contribuição de Fadul para a defesa da soberania nacional: a denúncia das práticas das multinacionais dos medicamentos - o enfrentamento mais popular do período João Goulart.

Eduardo Costa em 07/01/2014.