segunda-feira, 25 de agosto de 2014

A MORTE DE GETÚLIO 60 ANOS DEPOIS



Beth Carvalho e José Augusto Ribeiro na Livraria da Travessa
 em 24 de agosto de 2014.
No dia de ontem, 24 de agosto de 2014,  tivemos o privilégio de ouvir e debater com José Augusto Ribeiro a contribuição da Era Vargas para o Brasil.

Foi uma oportunidade ímpar usufruir do fantástico conhecimento de Zé Augusto sobre a política brasileira e mundial no século passado. Misturo aqui umas reflexões pessoais com as que ouvimos.


O SUICÍDIO

Não é possível para um médico passar pela morte por suicídio sem falar sobre ciclos depressivos que abatem pessoas e a humanidade. Mas, apesar das notas jornalísticas e pareceres de pseudo-historiadores que querem associar isso, no caso de Getúlio, não tem nada a ver. 

O suicídio pela tristeza e isolamento com a crise política que atravessava, ou sua índole manifesta em outras ocasiões, como a de que se fracassasse a revolução de 30 ele não se deixaria prender - preferiria a morte, não voltaria derrotado, não estão no campo médico.  

Ora, isso não é depressão, é cultura. Pertence ao campo antropológico e sociológico.

Getúlio evidentemente deveria estar mais reflexivo e, porque não?, abatido, frente à campanha desenvolvida por Lacerda, possivelmente estimulada pela CIA, depois da criação da Petrobras (já havia acontecido a intervenção da CIA/EEUU na Guatemala e no Irã). E a longa vida o fazia reconhecer que não se movia mais tanto por “instintos“; - é a contribuição da idade. Isso é absolutamente normal, só alguém com grave perturbação mental não sentiria o peso da campanha contra ele. Ele tinha a opção política da renúncia ou da resistência até armada. Resolveu pela última preservando a honra e uma fratura que pudesse desaguar na privatização dos recursos naturais brasileiros. O texto da carta-testamento é suficientemente claro sobre isso.


Nada pior do que morrer em vida e, como diria jocosamente um tio meu, gaúcho também, preferia a morte a morrer sem honra, humilhado.  Ora, esse é o tipo de suicídio imposto socialmente, é o que obrigava o comandante do navio que afunda a não deixar o barco e os comandantes militares derrotados a se suicidar ou fazer harakiri. Nada a ver com depressão. Suicidar-se ou correr (contribuir) para a própria morte para salvar a honra não cabe nessas categorias estritamente psicológicas. No campo político não são tão raros os casos com um sentido de legado. O de Getúlio e o de Allende, certamente são emblemáticos na história latino-americana.

Sempre lembro do dia que um amigo, Carlos Araújo, me perguntou se eu poderia conseguir cianureto de boa qualidade. O pessoal do fronte na luta contra a ditadura tinha feito umas cápsulas para que pudessem se suicidar, se presos; um deles mordeu, mas não morreu – teve uma diarréia! Ora, não era em princípio para evitar o terror da tortura a que eram submetidos: era que não queriam falar e acabar contribuindo para que outros companheiros fossem presos. Aliás, ele mesmo, mais tarde, para não falar, tentaria o suicídio se atirando embaixo de um veículo em plena Avenida São João. Numa perspectiva, eram suicídios heróicos ou como bem classificou Durkheim, suicídios altruístas (O Suicídio, 1897).


DISCURSO DE OSWALDO ARANHA

Foi assim que Oswaldo Aranha, o companheiro de jornada de Getúlio, desde 1930, entendeu seu suicídio. Considero que um trecho de seu discurso no sepultamento é o mais acabado sentido que hoje, 60 anos depois, concebemos para o ato de Getúlio, naquela manhã de agosto (in Helio Silva, 1954 – LPM, 2004).

“... tenho consciência e devo dizer a todos e a todo o País, que tu morreste para que nós, os que te assistiam, os teus amigos, não morressem contigo. Devo declarar que, se assim vivemos, é porque tu te antecipaste na morte, para nos deixar na vida. O teu suicídio é o grande suicídio, o suicídio altruísta, aquele que faz a mãe, e do pai para o filho, e foste pai e filho como ninguém, e por isto soubeste fazer pelos teus. Ninguém mais do que eu o pode testemunhar. Todos os meus apelos eram no sentido de que a tua vida era da maior necessidade para o Brasil.
(...)
... Quando quiserem escrever a História do Brasil, queiram ou não, tem-se de molhar a pena  no sangue do Rio Grande do Sul, e ainda hoje, quem quiser escrever e descrever o futuro do Brasil, terá de molhar a pena no sangue do teu coração.
(...)
Quando há vinte e tantos anos, assumiste o governo deste País, o Brasil era uma terra parada, onde tudo era natural e simples; não conhecia nem o progresso, nem as leis da solidariedade entre as classes, não se conhecia as grandes iniciativas, não se conhecia o Brasil. Nós o amávamos de uma forma estranha e genérica, sem consciência de nossa realidade. Tu entreabriste para o Brasil a consciência das coisas, a realidade dos problemas, a perspectiva de nossos destinos. Ao primeiro relance, viste que a grande maioria dos brasileiros estava à margem, e a outra parte a serviço das explorações estrangeiras.”





GETÚLIO VIVE

Getúlio vive e viverá mais que tudo pelo regime de garantia dos direitos do trabalho no Brasil e por suas decisões estratégicas para o desenvolvimento do Brasil, tendo tomado partido de um nacionalismo – decorrente da história colonial brasileira – anti-imperialista, pois, com opção estatal, no conflito com os interesses privados. Getúlio sabia que privatização da economia significava desnacionalização e fraudes.

Ao criar a Petrobras estatal, teve de criar um novo marco na administração pública que chamamos de “empresa estatal”.  Até hoje a luta dos privativistas é acabar com esse tipo de estrutura legal. Se é fantasioso para usar para o setor social, sendo apenas expediente para terceirizar, privatizando os recursos públicos, é indispensável para o setor produtivo estatal. Inconcebível se mover e se tornar eficiente com a parafernália legal feita para que o setor público típico não funcione com eficiência.


O LIVRO – A ERA VARGAS

Não cabe aqui um artigo longo sobre o legado de Getúlio, mas para encerrar cabe dizer a partir do exemplo anterior: não há o que se possa analisar que ocorra hoje que não tenha sido antes desafio e soluções colocados na Era Vargas. Mas nesses 60 anos querem fazer diferente, renegando sua contribuição e, por isso, tropeçando nela.

Nosso desafio é fazer os jovens conhecerem o legado da Era Vargas, para calar mentiras e manipulações dos que tentaram e tentam impedir o desenvolvimento autônomo do Brasil, com justiça social.

Encare o livro de José Augusto Ribeiro (não esse livro encomendado ao Lira que, para fazer um livro “neutro” esconde as outras versões de episódios importantes de nossa história.) Nele você vai entender melhor desde o império a história brasileira. Vai entender a revolução de 30 e a contra-revolução de São Paulo, nas suas origens: o ideário do Partido Republicano sobre o movimento operário.

Presidentes Getúlio e Roosevelt alinhados em 1936.
Entender a Revolução de 30 e o golpe de 37 precisa se colocar naquele tempo: a crise 29. Revoluções sociais ocorreram em vários países latino-americanos, inclusive México, Cuba, Nicarágua. Nos países que os revolucionários entregaram o poder para os “liberais democratas” virariam logo adiante ditaduras de direita, submissas aos Estados Unidos. Getúlio consegue manter o projeto de autonomia.

No livro do Zé Augusto, você vai conhecer verdades mascaradas tanto pelos integralistas como pelos comunistas, sobre o caráter “fascista” de Getúlio, ou seu “em–cima-do-murismo”. A um tempo em que Chamberlain fazia um acordo com a Alemanha e a União Soviética dividia a Polônia com Hitler, paradoxalmente, em 1938, o Brasil expulsava o embaixador alemão. A verdade sobre o caso Olga Benário aparece límpida – a decisão do Supremo – era 1936 e a ditadura do Estado Novo é de 1937. As olimpíadas da Alemanha foram nesse ano e disputadas pelos atletas de todo o mundo. O Partido Nazista era enfraquecido pelo próprio Hitler. 

Você se surpreenderá e deixará de ser como eu, antes de lê-lo, um mero aparelho repetidor de sandices inventadas para tapar os erros políticos de correntes políticas de então.






Eduardo Costa, 25 de agosto de 2014.


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